<

Je Maintiendrai

"... Le refus de la politique militante, le privilège absolu concédé à la littérature, la liberté de l'allure, le style comme une éthique, la continuité d'une recherche". Pol Vandromme

My Photo
Name:
Location: Portugal

Thursday, June 28, 2007


O RAPTO DA EUROPA

White founts falling in the Courts of the sun,
And the Soldan of Byzantium is smiling as they run;
There is laughter like the fountains in that face of all men feared,
It stirs the forest darkness, the darkness of his beard;
It curls the blood-red crescent, the crescent of his lips;
For the inmost sea of all the earth is shaken with his ships.
They have dared the white republics up the capes of Italy,
They have dashed the Adriatic round the Lion of the Sea,
And the Pope has cast his arms abroad for agony and loss,
And called the kings of Christendom for swords about the Cross.

G.K. Chesterton

Soam os canhões de Lepanto na blogosfera. Combustões saiu a terreiro com uma bombarda de honesta e escorreita prosa, como lhe é peculiar, sobre a adesão da Turquia à EU. Tão interessante a achei que lá lhe colei pr’a adjutório um pelouro discreto, a juntar a outro do veterano Réprobo. Saíram-lhe à proa as galés do Jansenista, despejando-lhe em cima duas tiradas de fogo grego. Combustões defendeu-se galhardamente apontando aos mastros de Port Royal, que, tant bien que mal, manteve o ritmo da remada com espaço para mais uma pelourada teimosa no portaló de Combustões. Antes que ainda apareça, ou desapareça, para ajuda, uma treda galé de Veneza, cá venho de vela aberta, peito feito e Santiago na boca a amparar a asa esquerda de Combustões.

Como já escrevi e aqui sugeri várias vezes, a Turquia é dos países que mais me fascinam; conheço-a relativamente bem e tenho, de longa data, bons amigos turcos; primorosos anfitriões como todos os Turcos, que me consideram e me dão o gosto de com eles discutir e pensar como em casa faria. Valho-me dessas vantagens e vamos aos argumentos.
Da frondosa argumentação do Jansenista, retenho a que mais me impressionou:
“Contraponho mesmo que não há Europa sem Turquia: o Direito que circula no continente europeu é um legado bizantino, uma reconstrução «oriental» da prática romana; a arte «grega» é geograficamente quase toda turca; Tróia é turca; sem a influência turca não teríamos, nem a estética veneziana, nem a russa; sem a Turquia não teria sobrevivido muita da tradição literária da patrística, sem a sua sombra tutelar muitos dos lugares sagrados do cristianismo não seriam senão uma recordação livresca.”
Ou seja, a benefício de argumentação, o Confrade Jansenista “turquificou” a Grécia e Bizâncio, e daí criou um argumento de dependência da Europa. Vamos por partes.
Em primeiro lugar, herança bizantina? Qual herança bizantina? O Império Romano sediado em Constantinopla, a 2ª Roma, nunca foi Bizâncio: foi a Roma da translatio constantiniana, o brilho de Hagya Sophia, a glória de Justiniano victor e legislador. A mesma Roma a que acresceu uma estética peculiar, que laborou sobre o mesmo Direito (que nunca “orientalizou” o Direito que hoje temos, ora que ideia) a mesma concepção integradora dos espaços sob a ideia da pax romana, a mesma concepção sacralizada e cristianizada do poder tardo-imperial. O termo “Império Bizantino” só foi cunhado mais tarde e ad derisionem quando em Constantinopla já se não falava latim mas grego. Sabe como já na Alta Idade Média apodavam os canonistas, os filósofos e os políticos do Ocidente ao pobre basileus de Constantinopla? Pois, graeculus; relíquia insignificante de uma cultura, de uma águia que já no tempo de S. Tomás de Aquino tinha há muito regressado do capitólio de Constantinopla aos das romas ocidentais. De facto, admitindo o conceito lato, “a cultura bizantina” só existe porque sobrevivente amparada na nossa cultura, e, sobretudo, na tradição cultural russa/ortodoxa fixada no mito da “Terceira Roma”.
Outra questão:
Bem sabemos que é belo, impressionante e comovente confrontarmo-nos com os vestígios gregos e bizantinos de Éfeso, Tróia, Niceia, Pérgamo ou Constantinopla, ou mais cá para baixo na magia dos túmulos Dálios, vestígios às vezes até bem mais impressionantes do que naquela terra de gente grosseira e fedorenta que é a Grécia. Mas, tirando a fímbria mediterrânica onde se aninham essas relíquias, calcula o que isso pouco conta na imensidade continental que é a Turquia? Vá o Jansenista pelos caminhos da Anatólia, nas rotas do Mar Negro, ou já para lá de Ankara; o que se lhe depara é de uma extraordinária riqueza cultural, mas estranho, pouco familiar e bizarro; colossos pétreos, cidades muralhadas e túmulos ciclópicos, bazares, rostos, cores e tecidos, tudo a ressumar pelos poros uma Ásia que indiscutivelmente começa ou continua ali. Ou até a música do povo da rua e dos campos, maravilhando-se, porventura, com os sistros, com as cornetas estrídulas ou com a respeitadíssima cítara horizontal de corda metálica que, parece, remonta aos Assírios. Onde as guitarras, os pífaros, ou a paraphernalia instrumental celta que vai das cornemuses bretãs à gaita gallega de Pontevedra? Em nenhures; é a terra dos Frígios e de outros povos desaparecidos no tempo que já mesmo sob Império Romano estavam fora do limes da romanitas. Bem sei que bárbaros eram também esses povos, hoje europeus, que César enumera no De Bello Gallico; pois sim; mas quantos anos têm eles de continua imersão num mundo cuja romanitas continuou sustentada na christianitas? Porque nos parece que o caro Jansenista cai em confundir “identidade cristã” com “prática religiosa cristã”, no sentido de minimizar a primeira por colagem ao quantitativo (hoje cada vez mais esquálido) da segunda. Engano-me, ou foi este precisamente um dos mais erróneos argumentos da purga das referências à herança cristã do malfadado projecto de Constituição Europeia? O Jansenista, e nós com ele, estamos todo os dias a escrever, a pensar e a reagir em função dessa moldagem cultural que resulta da cristianização dos Clássicos, e que, é de facto, o elemento estruturante e genésico do nosso pensamento, independentemente de sermos estóicos, epicuristas, escolásticos, kantianos ou nihilistas, laicos ou praticantes da igreja escocesa ou católica romana. Não é na Turquia que vai encontrar esse sustento; encontra sim – e di-lo bem o confrade das Combustões -- um caso de sucesso de ocidentalização ferreamente aplicado que não tem 100 anos. Nas vésperas da conquista de Constantinopla em 1453, no que hoje conhecemos como Turquia, já muito pouca gente pensava ou vivia ou recordava em termos culturais clássicos, à excepção desse enclave que era Constantinopla – mínimo por contraste com a desmesura do continente que avançava a Oriente -- e do rosário de mosteiros tolerados pela férula otomana. Seiscentos anos passados sobre a morte do último Paleólogo, ainda tudo isso se acentuou. Qual filosofia, qual língua, qual religião, qual quadro mental, qual ciência, qual estética perpetuada do clacissismo latino-oriental pela mão dos Otomanos? O genial albanês Ismail Kadaré (cujo “realismo fantástico” tanto lembra Garcia Marquez) tem escrito longamente sobre esse processo de “niilização cultural” tão característico do mundo otomano. E tão eficaz que, sobre essa descontinuidade, foi necessariamete por recurso a fraudes e mitos que os Gregos e os Romenos dos nossos dias, desentranhados do Império Otomano, tiveram que erguer ab ovo os mitos nacionais fundados numa fantasiosa continuidade cultural desde a aetas aurea dos cidadãos de Péricles ou das legiões de Trajano na Dácia.
Avançou-se, e bem, em meu entender, com o argumento étnico. Mas são irrelevantes as etnias nesta questão, como quer o Jansenista? Serão aqui na Europa e no torrão, pois, à parte as tiradas folclóricas de uns poucos de tontos, 9 milhões de portugueses estão-se a marimbar para se vêm dos celtas, dos godos, dos judeus, dos pretos ou dos legionários gauleses de Junot. No entanto, inquira um Turco de hoje e ele lhe dirá que sabe muito bem que é de origem iemenita, albanesa, egípcia, síria, azeri, e, sobretudo, lá no centro sagrado da Anatólia, turk, da raça dos seljúcidas e dos conquistadores de Mehmet II Fatih; sobretudo, todos, todos, se o não forem, lhe dirão com ênfase que não são curdos, porventura um dos maiores grupos étnicos que se agita e rumina vinganças das portas de Ankara aos limites de Mossul, no Iraque.
Qual afinidade, pois? Aproximação fundada na gratidão devida à Turquia por ser o repositória da tradição greco-latina a Oriente? Ora batatas. Num país que esturrou bibliotecas clássicas, que vendeu a Lord Elgin o que sobrou do Partenon e onde só há 3 ou 4 anos é que começaram a arrancar o estuque e a tinta que cobria os mais belos mosaicos dos templos bizantinos da capital? Justamente sugeriu Combustões que, à parte a coincidência no mesmo sítio geográfico, a Turquia tem tanto a ver com Bizâncio, como o Ben Bela da Argélia tem a ver com S. Agostinho de Hipona, Amílcar de Cartago com o Presidente da Tunísia, ou Akbar Shah com Jawarlal Nehru.
Por outro lado, na Europa, até na Boémia ou na Polónia se sabe há mil anos o que são os caminhos de Santiago de Compostela. Mas se um dia, na Turquia, quiser chegar à velha Iconia, com o Xenofonte nas mãos, porventura na rota de Paulo de Tarso, pergunte pelo caminho que nenhum turco será capaz de o guiar. No entanto, se inquirir de um qualquer campónio entretido no cultivo das suas hortas à beira da estrada onde fica, não Iconium mas Konya, ele lho dirá, até porque sabe que é lá o santuário e a última morada do afegão Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī, patrono dos derviches dançarinos, uma das glórias do mundo e da cultura religiosa islâmica. Ande pelas madrasas à sombra da Mesquita Azul de Istanbul e invoque o Código Justinianeu; responder-lhe-ão com o peso das fatwas e a lembrança heróica da eficácia mortal de um katil farman, um decreto de morte emitido por Sultões de gloriosa memória. Pergunte onde doiram o mosaico como o que ainda brilha em S. Irene e respondem-lhe com a pervivência da arte soberba da caligrafia arábica das tughras otomanas. As glórias do general bizantino Belisário, quando muito só se recordam em Roma nas cátedras de história de La Sapienza ou à sombra das ruínas das igrejas e dos hospícios que criou ali à sombra do que é hoje a Fontana de Trevi. Mas na Turquia qualquer gaiato na rua sabe quem foi Kara Pashah ou o Khayr ud-Din, aquele que nós só conhecemos como Barbarroxa, enxotado de Argel pela artilharia da nau Cagafogo às ordens do almirante António de Saldanha. No Loire e em Versailles maravilhe-se com os espectáculos son & lumière onde se recriam os bailados alambicados do Grand Siècle. Mas vá amanhã aos jardins do Topkapi e o que verá, no meio da multidão entusiasmada, é a recriação da ordem unida e dos cânticos bélicos da guarda dos Mamelucos antes de partir para a guerra, calcula-se contra quem… Essas são as continuidades profundas da Turquia, disciplinada pela bota pesada dos generais herdeiros de Ataturk. E repare que lá porque nestas praias somos uns tontarrões de uns consumistas sem memória e castrados pelo politicamente correcto, esquecidos que gozámos durante 300 de uma união europeia de facto, de Portugal à Rússia, da Suécia à Itália, baseados no desígnio único de defesa e ataque ao Turco, é razão para fechar os olhos ao facto de que consciência cultural e orgulho histórico são absolutamente vitais na compreensão da mentalidade turca de hoje e que assim se funda há quase mil anos no confronto agónico com o Ocidente Europeu?
Quer isto dizer que os Turcos alimentam qualquer desígnio de révanche sobre a Europa? Não; mas digo que há mais do que elementos marcantes e suficientes para uma distinção e para um afastamento que retira qualquer fundamento de adesão baseado em critérios identitários culturais e históricos, que são os únicos que viabilizam uma ideia credível de Europa. E até digo que os Turcos nisto são os mais honestos. Porque, sabe o que pensa e às vezes até verbaliza qualquer turco, já nem digo vulgar, mas medianamente culto e informado? Pois se não sabe, aqui lho digo: que o Turcos nunca olharam nem olham para a entrada na Europa como uma “reunificação” ou “ajuste histórico” a que aspirem de direito (como é admisível de Lisboa a Bucareste), mas simplesmente como um processo de conquista de uma oportunidade, por via negocial, de consagrar e aggiornar um dos mais acarinhados objectivos de Ataturk: cortar com o passado e com o contexto cultural a que historicamente pertencem, pela adopção de ritos e compromissos que lhes assegurem a legitimidade da pertinência a um mundo que lhes foi sempre estranho, que é rico e que é tentador. Nós que paguemos a factura, o problema é nosso, já que estamos habituados a outras como a da África, a do colonialismo, a dos emigrantes, a do género, a dos palestinos, a do holocausto, et al. Muito certo; mas pergunto-me: que obrigação tem a Europa de suportar as dores de parto da ocidentalização dos Turcos? Por interesse já basta a NATO. Agora, adesão? Para ajudar defender os Turcos da voragem islamita e as modernas virgens turcas da tirania do capote e lenço, como parece querer o Jansenista? Virgem Santa, que bizarra cruzada. Porque bulas? Tanso não é quem requer, é quem defere.

Webstats4U - Free web site statistics
Personal homepage website counter
Free counter <bgsound src="http://file.hddweb.com/80768/Zarah_Leander_-_Sag_beim_Abschied.mp3" >